domingo, 5 de dezembro de 2010

Luzia

- Porque não escreve? - Perguntou-lhe, numa tarde quieta, de doce intimidade, essa querida amiga, cujo nome era Maria Amália Vaz de Carvalho.
- Porque me falta tudo o que é necessário para fazê-lo, desde a gramática, ciência com que nunca consegui entrar... até o tempo...
- Sem a gramática, passa-se admiravelmente. Eu também nunca a aprendi, declarou, impagável de seriedade, a minha doce amiga - mas quanto a faltar-lhe o tempo, permita-me que duvide... Não tem casa, deveres de família, nenhum trabalho obrigatório...
- É por isso mesmo, minha querida senhora. Não há ninguém tão «affairé» como um ocioso... ocupação tão absorvente como a de não fazer nada...
- Mas experimente fazer alguma coisa...
- É tarde demais. Habituei-me a esta vida inútil, vazia...
- Porque diz o que não sente? Eu sei que sofre, que precisa de um interesse... trabalhe. Comece já hoje...
- Tenho um «bridge».
- O «bridge»  não a contenta...
- Diverte-me.
- Acho pouco. Melhor companhia lhe fará a pena...

Luzia abanou tristemente a cabeça, sem confessar à amiga que o conselho, que lhe dava, fôra o mais ardente sonho de mocidade. 
Luzia nasceu escritora, como tantos nascem poetas, pintores ou actores. Mas teria morrido, sem escrever, não fosse o suave aguilhão da querida amiga. 

in "Luzia, o Eça de Queiroz de Saias" de José Martins dos Santos Conde. 

3 comentários:

  1. È na sinceridade e humildade dessas palavras que podemos considerar o que é ou não um grande escritor...A Luzia quer novamente reencarnar na sua pena, mas alguem tem de ajudar "ela" =D com uma caneta... Ela precisa de alguem que a recolha do pergatório do esquecimento...
    Tudo de Bom Sophia...Também tu deverias escrever mais vezes, tal como a Luzia...=)

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  2. Querida .... Claudiluzia

    Sem qualquer sombra de dúvida, que a tua arte é a escrita, aliada agora a essa especial vivência interna, feita pela viagem da psicologia. Assim o sentimento flui e a caneta discorre no papel (leia-se no teclado) e daqui a muito tempo alguém ira ler os contos daquela menina que um dia sonhou ser a Luzia.

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  3. Um muito muito muito muito obrigada aos dois :)

    Eu sinto a mesma vontade de responder tal como a Luzia, quando Maria Amália lhe diz que devia escrever... "Porque me falta tudo o que é necessário para fazê-lo, desde a gramática, ciência com que nunca consegui entrar... até o tempo..."

    Mas vou fazer um esforço, porque confesso-vos, gosto muito de escrever... Embora destrua mais coisas escritas, do que as que publico...

    Um abraço para vocês,

    Tudo de bom,

    Sophia.

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