quinta-feira, 26 de maio de 2011

os nós do meu novelo

nascemos. à medida que crescemos e vamos formando a nossa personalidade, muita coisa se vai enrolando no nosso novelo. somos um novelo. de experiências, de sensações, de modelos, de vivências. e o nosso novelo vai agarrando tudo. vai chupando a água derramada, os sorrisos e o sangue. o fio de lã chupa todas as nódoas. e para além disso vai-se intrincando, enrolando sobre si próprio. quando damos conta, somos grandes. e sabemos que muitas coisas estão presas no início do nosso novelo... coisas que nos condicionam quando somos grandes... coisas que não queremos, coisas que nos põe doentes... queremos livrar-nos delas, mas não conseguimos... por mais que lavemos o novelo, a água já não consegue chegar ao centro... molha apenas a capa exterior... quero libertar-me daquilo que tenho nas entranhas, quero libertar-me daquilo que não me deixa respirar, do que não me deixa relaxar, do que não me deixa ser... quero tanto, preciso tanto... como se consegue? ou me esventro, ou me viro do avesso... preciso tanto respirar sem as amarras do centro do meu novelo... quero mudar de pele, tocar nos extremos, rebentar com tudo, para poder voltar a reconstruir-me livremente... rasgar, rebentar, esventrar, partir, quebrar, rastejar, enlamear... quero ser tudo o que não sou, para assim poder ser eu. uma coisa que pode ajudar, sempre que nos depararmos com aquilo que do centro de nós vem à superfície, com aquilo que nos põe doentes fisicamente só de pensarmos, quando os nossos medos, as nossas angustias nos atingem como uma pedra cheia de espinhos na barriga, podemos encher o peito de ar, olhar o horizonte e dizer para o centro de nós mesmos: que se foda.
quero quebrar todas as ligações, rebentar todos os fios, ultrapassar todos os meus centros manchados de merda. 
quero ser livre de ser.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Metamorfoses da Alma

Metamorfoses da  Alma é uma colecção de textos escrita entre Fevereiro de 2005 e Julho de 2006. Como podem perceber já lá vão uns anos... 
Todos esses textos foram publicados num blog criado por um grupo de amigos, onde todos deixávamos algo de nós. 
Hoje decidi partilhar com vocês, os meus escritos da época.
Para os lerem basta clicar aqui.
 

Morangos e Madalenas com Chá

A página em branco, o silêncio... Queremos escrever, mas quando nos sentamos perante uma página em branco, o silêncio invade-nos... 
Quantas vezes me sinto arrebatada e inspirada numa aula para escrever, ou quando leio trechos de um livro que me toca profundamente, quando ouço uma música, ou quando a brisa solar me acaricia o cabelo... Em momentos como estes, abre-se uma porta em mim, e desfilam na minha mente ideias, contos, poemas, diálogos, e quase morro com tanta vontade de escrever... Mas deixo passar esses momentos, porque ou tenho de seguir caminho, ou tenho de estar atenta a quem fala... E quando me sento para realmente escrever, o silêncio invade-me... 
Preciso de um bom bocado... Vou mergulhando em camadas de mim mesma, buscando a corrente que me levará a entrar "naquele" estado de espírito...

Fecho os olhos, respiro fundo, relaxo os músculos e deixo-me ir... Quero tanto deambular em mim, por mim... E uma doce melodia vai ecoando bem lá no fundo... Palavras cristalinas, raios de luz, um doce embalar... E lá está ela, uma personagem... A minha velha amiga personagem... Vem sorridente com flores nas mãos, um ramo de perfumadas peónias, um cesto cheio de maravilhosos morangos vermelhos, doces, sumarentos, e uma caixinha cheia de aromáticas madalenas.  

Coloca as peónias numa jarra, que pousa na mesa da cozinha, o seu perfume é inebriante... Peónias, uma das suas flores preferidas...
Decide lavar os morangos, está desejosa de os comer, só o cheiro destes suculentos frutos desperta nela sensações estranhas, como que apaixonantes... Morangos... Porquê morangos?... Ia jurar que ainda no ano passado, afirmou não gostar muito deles... 
E as madalenas? Há anos que não come madalenas! Porque sentiu uma vontade irresistível de as trazer, mal as viu à venda?
São estes os pensamentos que desfilam pela mente da minha personagem, enquanto vai lavando silenciosamente os morangos...
E sem que ela saiba, eu sei a resposta a todas as questões que lhe passam pela mente...

O sol bate na janela da cozinha, já com os morangos lavados ela senta-se à mesa pensativamente... A mesa tem umas cores vibrantes, o rosa das peónias, o vermelho dos morangos, o laranja das madalenas de limão... E o sol, o sol que bate na jarra de cristal e brilha, iluminando o seu rosto...
- Tenho de fazer um chá, estas madalenas só podem ser comidas com chá... - pensou ela. 
E nesse momento colocou água na chaleira a ferver...

Quando tudo estava pronto na mesa, sentiu-se arrebatar por uma extrema felicidade... Com algo tão simples, os seus poros, os seus olhos, a sua alma estava arrebatada... Uma simples refeição banhada pelo sol... Que pura felicidade...
Começou a comer os morangos, um a um, primeiro cheirava-os, inspirava-os, trincava-os a meio, ficando com os dedos cheirosos e vermelhos do morango, quanto mais comia, mais seduzida, maravilhada se sentia, e não os conseguia parar de comer... Descobriu que tinha sede de morangos... Estava deliciada...
Serviu o chá perfumado na delicada chávena de porcelana, pegou numa madalena, deu-lhe uma dentada, bebeu um gole de chá e parou no tempo... Como se tivesse acabado de ingerir Luz, sol liquido...
Que prazer... Que deleite... 
Morangos e madalenas com chá...

E eu sei o porquê de tanto deleite, de tanto prazer...
A literatura tinha feito com que estes simples alimentos, provocassem uma experiência tão arrebatadora à minha amiga personagem.
Sim, a literatura...
Com todo o seu poder, entranha-se nos nossos poros, desperta-nos paixões, relembra-nos coisas que julgávamos mortas...

Proust e as suas madalenas com chá...
Cuca Canals e a referência a morangos apaixonantes...
Dois autores lidos pela minha doce personagem...

E agora, se me dão licença, vou beber o meu chá. Já está à temperatura ideal... Tenho madalenas para acompanhar, e antes de adormecer, ainda vou devorar os últimos morangos que me restam....

sábado, 23 de abril de 2011

Daisy, Daisy, Daisy...

A minha mais que querida Daisy









 
Não consigo deixar de partilhar com vocês a história da minha doce Daisy, a minha linda gatinha.
No dia 14 de Fevereiro decidimos ir à SPAD, adoptar uma gatinha. Eu queria uma gatinha, de preferência bebé, pois queria educa-la para que fosse bem comportada...
Quando lá chegamos indicaram-nos o gatil, para irmos ver os gatos, e pelo meio dos latidos ensurdecedores dos cães abandonados, chegamos ao espaço dos gatos... Eram imensos também... Gatos, gatas, malhados, riscados, amarelos, brancos, pretos... Mas nada de gatos bebés... A mais nova tinha já uns seis, sete meses... Fiquei um pouco decepcionada, pois queria mesmo muito uma gatinha bebé...
Metemo-nos lá dentro e misturamo-nos com todos aqueles gatos... 
Agora devem estar-se a perguntar, no meio de tantos gatos, como se escolhe um? Como sabemos que é aquele, qual é o certo? 
Não é nada fácil...
No nosso caso, antes de lá entrarmos, já um gato miava na nossa direcção, miava, e miava, encostando-se às grades, chamou logo a minha atenção... Quando entramos, estávamos a observar muito atentamente, todos os gatos, perguntando-nos, e agora? Estávamos de costas para uma plataforma (para onde os gatos por vezes sobem), olhando atentamente os gatos que tínhamos na frente, dentro das "casotas", quando de repente sentimos uma coisa nas costas, a nos tocar, mal nos viramos, um gato pôs as patas no nosso peito, subiu para cima de nós e distribuiu turrinhas pelo nosso pescoço e pela nossa cara... Fiquei logo derretida, e surpreendida, era o mesmo gato que miava na nossa direcção, quando ainda nem tínhamos entrado!
Eu só pensava, será que é uma gata? É que queria muito uma gata, e queria uma quase bebé, e este era já tão grande... Vi todos os gatos com muita atenção, mas aquele não me saía da cabeça... 
Acabamos por falar com a tratadora, e sim, era uma gata, a maluca que se atirou ao nosso pescoço para dar miminhos :)
Já estava no gatil há uns sete meses e tinha entre um ano e meio a dois... 
Fiquei confusa, ia tanto com a ideia de um gato bebé...
Fomos almoçar, para ponderar bem a nossa decisão... Eu só pensava e agora?
Mas não conseguia deixar de pensar naquela maluca tão querida... 
Decidimos lá voltar depois do almoço, voltamos a nos misturar com os gatos, olhando, fazendo festas, pegando ao colo... Mas no fundo de mim mesma, sabia que já tinha sido escolhida... Uma das gatas já nos tinha escolhido... E não conseguia ignorar isso...
Disse então, vamos levar a maluca querida, não me importo que já tenha quase dois anos... 
E foi assim, que trouxemos a nossa linda gatinha para casa. Soubemos que estava doente dos ouvidos e precisava de tratamento, mas nada me demovia já, era aquela, sem dúvida, era aquela menina que pertencia a nós e nós a ela. E tem-se revelado um doce, uma querida, uma bem comportada. É super meiga, adora enrolar-se no nosso peito enquanto vemos televisão, ou encaixar-se na dobra das nossas pernas, enquanto dormimos...
No início não sabíamos que nome dar-lhe, ficou registada como Sofia, apenas porque no primeiro momento não se consegue escolher logo um nome para um gato. Experimentamos chamar-lhe Sofi, mas não ia bem, chamamos-lhe também Mel, mas não assentava perfeitamente, todos os dias lhe chamávamos algo diferente, tentando encontrar o certo, até que Daisy, foi o que ficou, é a nossa Miss Daisy, o nosso doce, a nossa ternura.
É ou não é linda, a nossa Daisy?...



quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Um mergulho visceral, imagens, mar gelado com réstia de luz, mar gelado negro... Um dia de sol, o quente na pele, o escaldar do invólucro, o mergulhar, preciso mergulhar, e quebrar, quebrar o que me aprisiona, vozes ecoam atrás de mim, estão a dar-me tempo a mais, e já rebolo pela areia com o bater da rebentação. Espuma. O ser que se eleva, a dualidade, a voz como um trovão, tudo vibra à minha volta como um épico... É preciso quebrar, é preciso partir, rebentar, já não chega, não te dissemos? Não é isso! Não o estás a fazer! De que estás à espera? Esquece tudo, sai de ti, não interessa, já não interessa se a preto ou branco, sai! Dois espectros da imaginação, um vestido de negro, cabelos revoltos, olhos negros, espada às costas, atitude de quem conquista mundo e é indiferente a tudo o resto... O outro... tão ténue que nem o consigo diferenciar... Saio da espuma e começo a correr... As vozes perseguem-me, os espectros perseguem-me, a vida persegue-me na tentativa de me acordar... 
Por vezes apanham-me, e fico num invólucro sem ar, quero respirar e não consigo, com lágrimas nos olhos imploro, imploro por uma nova tentativa, sei o que tenho a fazer, mas algo me trava, algo me prende, algo não me deixa Ser...

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Paixão pelo chocolate...

Vou deixar-vos aqui uma receita que considero excelente...
Excelente para os dias de chuva, para os dias de frio, para quando estamos adoentados, para quando precisamos de um pouco de aconchego, ou simplesmente porque nos apetece um pequeno prazer...
É excelente tomada antes de ir para a cama, mas eu já experimentei ao pequeno almoço, e ao lanche... É perfeita para qualquer momento...

Vou dizer-vos a receita padrão, depois, cada um apimenta ao seu gosto...

Para duas chávenas desta bebida poderosa:
Numa panela vertem-se duas chávenas de leite gordo (tem de ser gordo, não pensem em dietas agora...); junta-se ao leite um aromático pau de canela, uma colher de sopa de açúcar castanho ou mascavado, umas duas colheres de sopa de mel, e uma (eu às vezes ponho duas...) malagueta seca... E leva-se ao lume...
Quando o néctar começa a borbulhar, pegamos na preciosa barra de chocolate negro, e partimos aos pedaços uns cinquenta gramas de chocolate para dentro do leite, e vamos envolvendo sem parar... Mas atenção, o chocolate tem de ser de excelente qualidade, dele depende o poder do nosso produto final... Eu costumo usar chocolate negro da Lindt, um com 85% de cacau, que vem sem produtos químicos, e só com ingredientes de qualidade. Se o vosso chocolate tiver uma percentagem inferior de cacau, então terão de utilizar mais do que cinquenta gramas de chocolate para duas chávenas. Mas também é uma questão de gosto, eu adoro o intenso sabor a chocolate nesta bebida...
Mas onde íamos? Sim, na parte de partir o chocolate para dentro do leite, e mexermos até ficarmos hipnotizados com a cor escura que vai ganhando o leite, e com o aroma que dele se solta...
Quando o chocolate estiver totalmente derretido e fundido no leite, e já estivermos embriagados com aquele aroma, vamos buscar a garrafa do rum e deitamos umas duas colher de sopa no nosso poderoso preparado...
E mexemos mais uma vez...
Desligamos o lume, deitamos o preparado em duas chávenas, oferecemos uma a alguém querido, e vamos enroscar-nos numa manta quentinha, onde está o nosso livro favorito, e para onde levamos esta chávena de cacau absolutamente divinal...
Mas cuidado... Para além de estar a ferver, é completamente viciante...
Desfrutem... 

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Amor pela Literatura...

"A venerável pinacoteca da literatura universal está aberta a todos os homens de boa vontade, ninguém se deve deixar intimidar pela sua riqueza, porque aquilo que conta não é a quantidade. Há leitores que, durante uma vida inteira, se limitam a ler uma dúzia de livros e que são, no entanto, verdadeiros leitores. E há outros que devoram tudo e que sabem falar de tudo e, não obstante, os seus esforços foram vãos. Na verdade, a cultura pressupõe o cultivo de qualquer coisa: isto é, de uma personalidade, de um carácter. Onde estes faltarem, onde uma cultura destituída de substância age, por assim dizer, no vácuo, talvez se desenvolva um saber mas certamente que não se desenvolverão o amor e a vida. A leitura sem amor, o saber sem reverência e a cultura sem coração estão entre os piores pecados que se podem cometer contra o espírito."

in Uma Biblioteca da Literatura Universal, Hermann Hess.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

O vício dos livros

Adoro livros, pura e simplesmente adoro-os. Há momentos em que vou às livrarias e apetece-me comprar toneladas deles... Noutros momentos, em que quero comprar realmente um, parece que nada me chama... E nunca têm o que eu queria ver... 
Passo perfeitamente bem uma infinidade de horas numa grande livraria, vagabundo de corredor em corredor, de prateleira em prateleira, de lombada em lombada, tentando perceber qual me chama, qual o que deve ir para casa comigo...
Quando me sinto mais cansada, às vezes tenho vontade de me atirar para cima de um expositor cheio de livros, e dormir uns minutos em cima de todos eles... Cheira-los, conta-los, toca-los, sonha-los... 
Hoje acordei a pensar em livros... Dá para reparar não é?
Acordei e pensei, «tenho saudades de ler algo verdadeiramente viciante»... 
Já vos aconteceu? Ler um livro tão viciante, que à noite não conseguem fecha-lo, sabem que têm de madrugar na manhã seguinte, que vão acordar com uma enorme dor de cabeça por só dormirem três horas mal dormidas, e com uns horríveis olhos inchados, e com um cansaço no corpo que vos faz sentir miseráveis o dia todo... Mas mesmo assim, não conseguem fechar o livro... E quando por esgotamento total, os olhos já não conseguem ler nem mais uma palavra, porque todas as letras dançam, uma dança do ventre, fechamos finalmente o livro... E adormecemos? Qual quê! Damos voltas e mais voltas na cama, pensado e repensando o que irá acontecer aquelas personagens, o que estará a acontecer? Então, ligamos mais uma vez a luz e dizemos «vou ler só mais cinco páginas...», enquanto na nossa cabeça o bom senso liga o alarme «já devias estar a dormir, amanhã vais estar que nem podes, és mesmo parva, fecha isso, já nem consegues ler, DORME!». E tanto nos chateia a voz da nossa consciência, que acabamos por ceder.
Mas o vício não termina aqui... Mal adormecemos e já estamos dentro do livro, a sonhar com as personagens, a dar um rumo à história...
E quando o relógio desperta às sete da manhã, temos uma dor de cabeça inimaginável, e mesmo assim, somos tentados a abrir o livro, para ler nem que seja duas páginas, nem que tenhamos de sacrificar o nosso delicioso pequeno almoço de café instantâneo e bolachas maria...
Já vos aconteceu o semelhante?
Se sim, digam-me, e digam-me com que livros, porque sinto imensa falta de me sentir assim... 
A última vez que isto me aconteceu, foi à sensivelmente uma ano atrás, em que li uma trilogia, de um escritor sueco, Stieg Larsson, cujos títulos são, "Os Homens que Odeiam as Mulheres"; "A Rapariga que Sonhava com uma Lata de Gasolina e um Fósforo"; e "A Rainha no Palácio das Correntes de Ar", isto na tradução portuguesa, claro, que às vezes deturpa títulos, de uma forma hilariante! Não sei quem se lembra de pôr títulos tão diferentes dos originais! Mas pronto, pormenores!
Como eu estava a dizer, foi à um ano que tive a experiência maravilhosa de andar dias de olhos inchados, por causa de uma trilogia, tão viciante, e como vos digo, estou com saudades!
O Stieg Larsson, ia escrever dez volumes, mas não sei o que é que lhe deu, e morreu!! Não se vicia desta forma os leitores, para depois morrer! 
Mas enfim, agora só me resta esperar pelas vossas sugestões de livros, que me tirem o sono, e a razão!  

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

noite e dia

Os dias passam a um ritmo que não consigo entender... Já não distingo as horas e o que que elas querem dizer... Não há distinção entre noite e dia... Existem planos, coisas que gostava de fazer, coisas que tenho de fazer... Elas são o meu relógio... O problema é que não avançam... Estão como num limbo, nunca passando para o plano da concretização... O meu tempo em coisas para fazer não passa, parece que ainda está tudo num único dia... Mas na verdade, na verdade já passaram milhões de dias, milhões de noites, que só distingo porque muda a cor do céu...
E os dias enrolam-me e embalam-me na sua doce melodia... E por aqui ando eu, como uma folha ao vento, numa eterna deambulação...  

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Pequenos nadas

Dedico este texto à minha querida prima Susana.

Serão as pequenas coisas que animam o nosso quotidiano? Que pequenos prazeres são estes que nos parecem mágicos? O mundo feminino está repleto de cheiros, brilhos, cores, texturas, fitas, pedrinhas, sonhos num pequeno pote de rouge
Como podem todas estas coisas serem tão preciosas, e terem um impacto tão grande no humor e imaginário das mulheres?
Um pouco de rouge no rosto, um gloss brilhante nos lábios, e umas vaporizadelas do nosso perfume favorito, e sentimo-nos outras, como se a nossa auto-confiança aumentasse logo com estes pequenos rituais…
E todas podemos desfrutar deles, absolutamente todas podemos ter orgulho de despertar a nossa feminilidade… O nosso romantismo…
Podemos trazer a feminilidade à flor da pele, torna-la tão sedosa como uma pétala de rosa, podemos despertar de novo o gosto de prepararmos bolinhos para o amor da nossa vida, e quem sabe até aprendermos a lhe tricotar um cachecol, muito mais valioso do que qualquer um que possa ser comprado na mais cara das lojas… Isto é fazer renascer a feminilidade nas pequenas coisas, criar pequenos prazeres feitos pelas nossas próprias mãos, numa era em que tudo é feito em serie, sem a impregnação da mais pequena gota de amor.
Não podemos deixar os nossos sonhos presos num pequeno pote de rouge. Nós conseguimos ser tudo aquilo que quisermos ser… não podemos ter medo de nos descobrirmos e às nossas imensas potencialidades, é preciso gosto, orgulho, dignidade, e nada das desculpas de que não há tempo para cuidar de nós, ou que não temos dinheiro suficiente para nos pormos nas mãos de profissionais em SPAs
Pequenos rituais diários, pequenos cuidados com nós mesmas e transformamos logo o brilho da nossa aura…

domingo, 5 de dezembro de 2010

Luzia

- Porque não escreve? - Perguntou-lhe, numa tarde quieta, de doce intimidade, essa querida amiga, cujo nome era Maria Amália Vaz de Carvalho.
- Porque me falta tudo o que é necessário para fazê-lo, desde a gramática, ciência com que nunca consegui entrar... até o tempo...
- Sem a gramática, passa-se admiravelmente. Eu também nunca a aprendi, declarou, impagável de seriedade, a minha doce amiga - mas quanto a faltar-lhe o tempo, permita-me que duvide... Não tem casa, deveres de família, nenhum trabalho obrigatório...
- É por isso mesmo, minha querida senhora. Não há ninguém tão «affairé» como um ocioso... ocupação tão absorvente como a de não fazer nada...
- Mas experimente fazer alguma coisa...
- É tarde demais. Habituei-me a esta vida inútil, vazia...
- Porque diz o que não sente? Eu sei que sofre, que precisa de um interesse... trabalhe. Comece já hoje...
- Tenho um «bridge».
- O «bridge»  não a contenta...
- Diverte-me.
- Acho pouco. Melhor companhia lhe fará a pena...

Luzia abanou tristemente a cabeça, sem confessar à amiga que o conselho, que lhe dava, fôra o mais ardente sonho de mocidade. 
Luzia nasceu escritora, como tantos nascem poetas, pintores ou actores. Mas teria morrido, sem escrever, não fosse o suave aguilhão da querida amiga. 

in "Luzia, o Eça de Queiroz de Saias" de José Martins dos Santos Conde. 

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Gosto

Gosto de escrever, do cheiro dos livros, de encadernações bonitas. Gosto de construir histórias, de pormenores, da riqueza existente no dia-a-dia. Gosto da beleza, de fitas de veludo e de cetim, das flores, das cores, dos perfumes e texturas. Caixinhas, contas, dourados, prateados. Sonoridades. Fado. Poesia. Leituras recheadas de pormenores, rituais, beleza, encantamentos, culturas. Gosto de paixões, emoções, magia. Rituais que transformam um dia. Gosto de cantar. Roupas com pequenos apontamentos de cor, portais para quem acredita em sinais. O cuidado perfumado do corpo, os cabelos a brilhar. Presentes construídos ou embrulhados com as nossas próprias mãos. Um bolo a fumegar. O cachecol para tricotar. A casa para enfeitar com bolas e grinaldas de Natal. Gosto das histórias de encantar, de ilustrações que fazem suspirar. Gosto de gatos enrolados na minha barriga. De chocolate quente com chilli. De frasquinhos de compotas caseiros. De óleos para massajar. Gosto de amor e acredito no príncipe encantado. 
O que eu gostava mesmo era de salpicar a vida das pessoas com magia, com cores, com cheiros, fazê-las ficar de olhos a brilhar, sorriso nos lábios, e a prestarem atenção aos sinais mágicos do Universo. Fazê-las acreditar que tudo é possível, e que há paixões para voltar a despertar.

Somos deus no nosso pequeno mundo inventado...

O nosso pequeno mundo inventado... Quantas construções em paralelo não nos trespassam a mente? Quantos pequenos segredos, falas, julgamentos, vozes temos em nós? Quanta magia pomos no que nos rodeia, com aquela vozinha que faz eco dentro da nossa cabeça? Até onde voamos? Voamos... Voamos... Estamos no café, sentados sozinhos, a saborear o nosso quente e forte expresso, num momento ouvimos os ruídos do que nos rodeia, sentimos o calor da chávena na mão, o sabor do café, e no momento seguinte já lá não estamos... Como um passe de mágica somos transportados até ao nosso pequeno mundo inventado, onde somos deus, pois são as nossas árvores, os nossos rios, os nossos personagens que vemos, com quem conversamos, que inventamos... Ora passeamos por um jardim, com um lago brilhante, como passeamos por uma praia de mar negro, como já estamos a imaginar mil desfechos para um problema, ou situação que temos para viver...
Consigo estar horas sentada sem fazer nada, e sem me aborrecer... Fico alienada no meu mundo, como costumo dizer, gosto de perder-me nas ruas das minhas cidades... E é uma alienação, ou não... Quem sabe aquela é a minha realidade, que eu mexo, movo, crio, faço, desfaço, enalteço, destruo, reconstruo, em tons de brilho, em tons de noite, em tons de luz...
Como é bom vaguear, alienar-se, perder-se... No mundo das ideias, dos conceitos, da imaginação... Brincar com todos eles, pensa-los, redescobri-los...
Que mágica é a palavra... Com ela somos deus no nosso pequeno mundo inventado...

Associação Livre

Dá-lhe, um mar, marcador, naquele avião cor-de-rosa, o cavaleiro andante mergulhou, não sabia que peixe podia encontrar, que demónio o podia conduzir, naquela noite, em que a mulher de pele cor de cera e toque de seda falou, uma incandescência vermelha jorrou, na noite escura. Quem és tu? Perdeu-se na noite, no escuro, na sua vida, sem armadura, completamente sem armadura ficou, sem nada, e com medo, até que um dia, nem o medo restava, nem a armadura, deu-se de conta que era livre, tão livre, que nem sabia o que fazer com aquele sentimento. Misturava-se com tudo, com aquela árvore de flores pequeninas, na minha cabeça não sei se eram flores cor-de-rosa, ou brancas, se era uma amendoeira em flor, ou uma cerejeira. Como eu adoro cerejas, é como aquela explosão, vermelha. E foi um autêntico galopar, um dissolver-se com tudo, com a terra, com o céu com o mar. E a minha Marília voltou, a minha personagem Marília, que um dia voou. Estava livre, sem prisões sem amarras, sem medos, leve como uma pena.
O café estava empestado de nuvens de cigarro, o cheiro a café à mistura, naquela noite, soava o jazz, e Pedro Albuquerque estava sentado a um canto, estava completamente longe, a sua mente divagava, divagava mais para lá de qualquer coisa sólida, pensava em pensar, pensava no vazio, ficou preso numa outra dimensão, e foi aí que ele viu, um cavalo completamente cor-de-rosa, um bonito cavalo, cor de rosa… em que espécie de dimensão estou? Ao lado uma menina, uma menina que irradiava luz, de vestido cor-de-rosa, cabelo aos cachos e olhos cor de chocolate, segurava uma enorme nuvem cor-de-rosa de algodão doce. Passava um rio ao lado, de pedras estranhas que se viam através da água translúcida. O mais surpreendente é que apareceram dois cagados cor-de-rosa. Até que uma nuvem negra apareceu, a menina se enfureceu, os seus cabelos se revolveram no ar, e o seu cavalo cor-de-rosa, negro ficou. Alguém partiu um copo e Pedro Albuquerque voltou à realidade onde o seu corpo estava presente, o café, a nuvem de cigarros, a surrealidade de tudo aquilo.
Vejo paralelos, vejo um carro, vejo uma descida, a criação da mente é fantástica, a imaginação, as personagens, os relatos, vive-se várias existências, somos deus no nosso pequeno mundo inventado… será que a nossa vida é fruto de um deus escritor? Será que estamos inseridos no seu mais árduo romance, na sua ficção? E que o que nos acontece são os meros devaneios de um deus escritor? Serão os nossos dramas, simples escolhas para apimentar um romance?